segunda-feira, 3 de março de 2008

Megatério de Cinzas


"Você precisa lutar para sobreviver. As guerras são os melhores períodos da vida de um homem. As guerras de amor, as guerras por conquistas em dinheiro, por conquistar respeito." _Melio Patrono, Pai dos 4 filhos da profecia.

"Nossas histórias falam sobre um salvador do reino das maçãs, um homem cujo poder inigualável traria a paz. Nós entendemos que vamos confiar em alguém, e dar a ele todos os poderes, por todos os meios possíveis que nós conhecemos para que possamos colocá-lo no poder e retirar o governante que crê mais na fé pagã que na nossa religião da felicidade. Nada contra o nosso querido rei Ichor, mas devemos espalhar a notícia deste modo. Os reinos externos pretendem nos invadir novamente, e as Badlands e Oth-Hor estão formando muitos guerreiros trabalhados nas liças, em lutas de vida ou morte, que não tem nada a perder. Se nós não unificarmos todos os reinos, seremos dizimados e a história de krautreich e da religião Una será esquecida pelos tempos. Isso é que não podemos deixar acontecer" _Caopo Paollo, Gotho Ard Avis (Catedrático do Sol de Avis)


Ao criar vínculo com aquela terra, a terra se acostumou comigo ali. Eu podia penetrar em seu seio, em seus genitais, fazer sexo com a mãe terra e obter o prazer da vida ali. Mas isso não é suficiente para um humano, percebi eu. Os Inumanos de Oth-Hor buscam isso durante toda sua in-vida mas a mãe terra é para eles como parte integrante de seus corpos e aeons, eles não conseguem aceitá-la como uma amante. Então os magos poderosos criam suas parceiras direto do ventre da terra;
El Aoqn o fez.
Do veio da terra surgiu Revora; Ele era o lutador de liças mais talentoso que já tinha visto. Também foi o primeiro que vi lutar e vencer. A cada canto dos reinos civilizados encontra-se uma arena de combates. Das trevas surgiram os pit-fighters. Liderados por Bakulla e Ngwindjië, tornaram as artes da lâmina as mais belas. A sombria facção Cinema Vermelha de Bakulla tinha como membros grandes nomes das liças como o próprio Revora, Lurya, a feiticeira, Qmelya, a troncuda, Dego, o faqueiro, Hardos, o impecável. Nada foi mais indescritível do que quando entrei para o mundo das lutas.

_Fekmah, esse é meu nome.
_Sou Beltane. Vago por estas terras à procura dos Cinemas.
_Você não os encontrará por aí. Eles são invisíveis.
_Mas eles lutam nas liças, encontrarei-os lá.
_Eles não lutam nas liças. Eles são os donos das liças. Eles não precisam lutar mais.
_Mas, o que você faz?
_Sou amigo deles.
_Me leve até eles!
_Não posso. Não sei onde estão. Simplesmente não sei.
Comecei a desenvolver uma profunda raiva. Não queria mais estar ali, eu não sabia mais o que eu fazia ali. Meu caminho se enchia de sombras, havia uma pequena estrada e eu a seguia montado em uma shakafta que ouvia minha canção viajante. Segui os fiordes do tempo avançando pelo espaço e logo encontrei missões viajantes. Fekmah era um deles. Ele desapareceu da minha memória nesse momento. Então fui até o grande salão das Vídias, no centro das terras do deserto. Com aquela shakafta eu poderia ir por todos os lados por esse reino e conseguir chegar a qualquer um dos Budhas, os reinos subterrâneos. A viagem era cansativa, grãos de areia dourada cortava minha pele, penetravam nela e me transformavam num homem-areia. Meus pensamentos eram perdidos, estranhos e não lineares. Eu sonhava com poeira mágica, poeira branca, poeira que faz o ser se perder na luz dos pensamentos devassos. Essa shakafta encantada era meu único luxúrio, minha única amiga e meu único perjúrio.
A única pessoa com quem eu tinha contato era uma viajante que passava todos os dias onde eu acampava. Nos víamos, discutíamos todos os assuntos sobre todas as coisas do mundo, ela ia até algum lugar, onde eu só me atrevi a ir uma vez e fiquei preso por 3 dias lá sem comida, e voltava com mercadorias. Ela estava sempre coberta com as peles dos homens-areia, mas ela era deliciosamente tentadora. Ela me contava sobre artistas que conhecia, e eu arrepiava até as unhas por isso. Seu sexo exalava o odor da perdição e eu a desejava. Mas não conseguia contar a ela. Quando insinuei que talvez ela pudesse passar uma noite em meu acampamento ela não voltou a aparecer em minhas memórias naqueles dias. No 29º dia ela me deixou.
Passei 32 noites ao relento procurando pelo Cinema nas casas de pedra. As moradias pareciam vivas durante o dia e mortas durante a noite. Mas nada de vida vivia ali. Comecei a formar miragens, sobre as coisas que li nos livros: Vampiros, fadas, magos, lobisomens, múmias, contadores de histórias, artistas, escultores. Tudo isso me assustava. Os deuses me assustavam. E eu comecei a me perturbar com isso. Eu via vultos e sombras de monstros, não conseguia durmir, eu acompanhava a lua em todo seu trajeto, então, enquanto a Lua e o Sol não estavam no céu, eu me cansava demais e desmaiava, e acordava aos primeiros raios mais fortes de sol. Eu me dei conta que eu era um perdido e que morreria ali. Eu era bom demais com as pessoas, eu era fácil demais com os outros, deixei-me levar por tantos. Eu não entendia porque ela não me queria, eu derrubava uma árvore por dia só com a força do desejo por ela. Pensei então que morreria pra sempre, sozinho. Tive a visão de que morreria intocado. E a visão despertou forte em mim. Então conheci Revora.
No 33º dia eu vi sombras se movimentando à noite. Eu estava o tempo todo num descampado, de tempos em tempos eu via algumas casas de pedra, dentro da própria pedra lascada e descapada. No 33º dia eu estava sob uma grande árvore acinzentada com galhos negros e retorcidos, exalava um cheiro de sangue meio metálico. Escorria pela árvore um sangue negro, que escorria tão lentamente que eu pude contar metade de um dia. Eu estava disfarçado, encoberto pela pele dourada da shakafta, como ouro e prata lado a lado. Eu via sombras se movendo, no 33º dia. Só as sombras passando pelo chão como se fossem fantasmas feitos apenas pela negra reação contrária à luz. Comecei a ouvir um estalido que crescia, formando um som distinguível aos meus ouvidos de homem-areia. Era algo parecido com o som do pensamento se transmitindo em mentes sombrias e enevoadas. Um tambor começa a soar e a névoa carrega as notas de uma sensação noturna, tão soturna e obscura quanto o próprio Cinema Vermelho, parecia um lamento, ou um grito de guerra daquelas sombras andantes. Eu vi um corpo listrado, vestido em calças de couro se aproximar e virar sombras junto com os outros. Corri.
Assim que comecei a me aproximar me senti preso, pelos galhos da árvore. Me esmagando contra o chaõ. No instante seguinte estava eu a metros de distância. E eu imaginava que tais poderes eram magos, ou vampiros, ou talvez pior, podiam ser artistas! E se fossem os magos pagãos, os druídicos ou taumaturgos? Me enchi de auto-confiança, esqueci de minhas miragens. Fui direto à frente deles e parei. A 30 passos de mim, eles fizeram minha condução desaparecer no ar. Areia agora só amarela, perdera seu brilho mágico da noite. A névoa vinha logo atrás cobrindo todo o descampado de terra rachada.
Saquei minha espada da bainha, recuei dois passos. Minha respiração era decidida, mas meu coração já se preparava para o embate que poderia ser mortal. A 10 passos de mim, meu cabelo e todos os pêlos de meu corpo se eriçaram, minhas pernas se eriçaram, e eu passei a levitar sem controle. A névoa, como em uma tempestade, começa a girar, tomando uma forma negra e amarronzada depois vermelha. Era Revora. Uma fumaça cinza circulava seus pés como uma pulseira. Seu rosto como um ovo negro, cheio de tatuagens sobre a pele opaca e vermelha. Ele estava sem camisa e só de calças de couro também, como o outro.
Eu estava agora a apenas 5 passos deles, as sombras tomando formas. Cada um de uma cor mais particular, todos sem camisas ou qualquer proteção acima da cintura. Revora trazia uma garra metálica na orelha, tatuagens negras sobre o corpo vermelho-morto. Ele estava logo à direita de Bakulla, um monstro cinza, rajado de branco. Bakulla carregava consigo a Podridão Mornicular, uma espécie de cetro dos pit-fighters, que ele usava em lutas, feito de pedra com metal, parecia minério cru e com uma lâmina na ponta. As formas dos outros eram totalmente distintas. Revora era reconhecível por seus óculos e as três pontas de sua cabeça, para trás. Bakulla era grande, forte, robusto, nojento e desprezível. Seus dentes todos prateados brilhavam com a luz da lua num azul claro embaçado pela gosma que ele secretava pela boca.
_Aska, warxa morina! - O que faz espionando o Cinema Vermelho, estranho?
_Sou homem-areia, as douradas cobras correm em minhas veias, assim como todos os venenos conhecidos.
_Parece que te conheço de algum lugar, já lutamos? - Revora perguntou com uma expressão menos amigável.
_Não, nunca, busco o Cinema Vermelho há 33 dias e quero me juntar a vocês. - Pensei que fossem rir de mim.
_Não se junta ao Cinema, você é escolhido pelo Cinema e é guiado até ele. Se você pôde nos encontrar é porque recebeu o chamado. Mas muitas pessoas que recebem o chamado, principalmente homens, (analisando-os bem, eram todos inumanos de Oth-Hor ou dos reinos ocultos das Badlands) não são suficiente para nós.
_Que eu lute e faça meu nome nas liças então, ó grão lorde Bakulla.
_Você só estará preparado para a luta se souber vencer com a sua mente antes.
_Eu tenho muito a ensinar a vocês, seres das sombras. Minha mente é mente aberta pelos pais celestiais...
_Ninguém aqui segue seus pais celestiais que só ajudam na hora das necessidades. Seguimos a Realidade de Azatustra. Somos mestres pagãos, cada qual com sua cidade sobre domínio. Nós somos os deuses, as profecias e os livros de nossas cidades natais. Cada qual compreende seu próprio império. Assim é feito nas terras cinzentas. Em Oth-Hor, terra dos grandes e maiores cavaleiros de todos os tempos, hoje nós não temos mais comida para dividir com os cavalos, que nós já comemos, por isso vivemos de lutar nas liças. - Todos responderam num uníssono
_Pra quê tanto trabalho de lutar nas liças? Porque não entram em algum trono que os mereça?
_Se matamos nosso inimigo, temos direito de enterrar o corpo. É assim que sobrevivemos sem comida, sem plantaçao. Há anos que os raios do sol e as colunas do tempo esqueçeram do nosso reino. Nunca mais é dia, nunca mais é noite. É sempre cinza, todas as cores são cinza, todas as pessoas são cinzas, tudo vira cinzas em Oth-Hor. - Metade se dispersou em névoa, fazendo o som das suas vozes ecoar por todo o reino até as bordas do castelo da Rainha Da Garganta de Ouro.
_Então o que preciso fazer pra fazer parte do Cinema?
_Queimar até virar cinzas.
Eu era parte de um mundo de sombras e fumaça pesada, eles entraram pelos meus pulmões, senti cada pedaço de dentro de mim morrendo e queimando, finalmente virando cinzas. Quando chegou ao meu cérebro, desmaiei.


"A parte mais difícil da mudança não é deixar para trás ou criar uma nova identidade, mas ter a certeza que mudar não é permanente, mas a mudança é." _Geddy Lee.

"Meu ritual de iniciação entre os poderosos do reino esquecido foi o mais doloroso que já passei. Em meses me tornei outra pessoa, com outra visão do mundo, outra concepção de idéias, outra narrativa na minha vida. Lutei, morri, queimei, saqueei e aprendi a tocar um instrumento. Conheci artistas, conheci pessoas, tive contato com irmãos de outra civilização. E só assim meus temores fugiram por um pouco. Ainda tremo só de pensar como as pessoas conseguem dominar-te apenas com música, são talvez os seres mais poderosos que conheço, os artistas." _Theron Elbeath, Rei sob as árvores deicídicas

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