

Eu me dei conta de quem eu era dessa vez. Não mais aquele prometido, aquele com um grande futuro. Eu era apenas eu. Eu não tinha nenhum poder, nenhuma habilidade especial. Apenas meu desejo de seguir sempre em frente. Corri.
Os dois me viram e Aoqn veio em minha perseguição. Ele era mais ágil e mais habilidoso que eu dentro daquelas terras, suas terras. Logo me deparei com o abismo: realizei que logo à frente estaria o deserto e para qualquer direção que eu fose, eu cairia no deserto e aí sim minha morte seria certa. Corri e corri, Aoqn atrás de mim como se só estivesse marcando meu ritmo, me fazendo correr pra onde ele queria. O cheiro de madeira molhada, os animais se escondendo com medo daquele barulho dos galhos finos partindo, as folhas roçando em minha pele toda esfaqueada, tatuada e desaurida, tudo isso junto era força maior para me dar maior vontade de ficar. E eu quis ficar. Pensei em desistir e não reagir. Mas a reação do poderoso Aoqn seria uma só: ele me comeria vivo. Talvez literalmente. Ele não aceitaria tal desrespeito. Comecei a lembrar de casa.
Quase 4 anos longe de casa, sem família, sem destino. Retornar faria meus sonhos se tornarem realidade. Sinto falta das rosas verdes, dos lírios azuis, das crianças e da inocência. Ah, como falta da inocência. De repente, caio.
_Esse faz ele durmir.
A última coisa que ouvir antes de desmaiar. Senti só uma leve picada e a voz doce de Kasandra, ainda ofegante.
Em meus sonhos, de frente pra mim estava o fogo em seus cabelos, como uma medusa flamejante que me deixava paralisado em reação ao seu encanto. E eu não queria mais acordar, mas acordei. Meu corpo estava vestido com peles, finalmente. Eles vestiam peles. Nós éramos os animais agora. Levantei minha cabeça, tomei um gole de eulea num coco, e de frente para mim estava o rosto marrom com negro, rajado como os céus em dias de guerra. Sua boca era negra, seus dentes eram verdes e vermelhos em tonalidades dissonantes com alguns em tons amarelo pálido. Eu estava plenamente consciente, pela primeira vez em um mês. Via uma fumaça cinza saindo de sua boca abolicionista enquanto pronunciava palavras deídicas. Seu conhecimento e sua sabedoria sobre a terra, eram perceptíveis apelas pelo seu olhar druídico. Mas as palavras faziam um sentido em minha cabeça, ele parecia estar dizendo a língua da terra, do mofo e dos parasitas.
_Althfazne Bhuajizaine, aboboana meythyiis. Loiuwearingua.
Seu encantamento me dava vida e agora minha vida não era mais passado, era presente. Agora sou.
_Eu, inumano, respeito a hierarquia dos pais unos, e da vida pagã. Eu, inumano, agora entendo o sentido das coisas da terra.
Essas palavras saíram de minha boca como se eu falasse a língua dele. Mas eu as entendi como minha cerimônia de passagem. Tambores começaram a soar. Meu corpo se levantou como devasso em um ritual macabro de bruxaria. A dança das almas começou, nós três envoltos em chamas, num círculo de pedras e fogo e sangue e terra. A natureza toda presente no círculo. E o quinto elemento em seu meio. Sinto-me como uma marionete da mãe natureza, apenas meu corpo se mexe sem que eu mande-o se mexer. Ao entorno do círculo, eu via corpos negros, sombras se movendo, como carvão queimando em fogo. Os tambores rufando, uma percursão divina em meio a um ritual pagão. De qualquer forma, a crença e a fé são sempre divinas.
Corri para cima, sobre as árvores, fui até o último galho, vi-me pra fora do mundo, perto da lua, tocando os deuses, então voltei. Acordei. Não mais preso à mãe terra. Eu era como um fantasma, enquanto o resto dançava lentamente envolta de mim. Eu ouvia a voz me chamando. Era meu pai.
No outro dia de manhã não havia mais nada. Nem oásis, nem pessoas. Só um rastro de pegadas e um E'fila, daqueles cavalos de deserto, para mim. Montei-o e segui viagem pelo rastro. Meu coração dizia insistentemente para seguir na outra direção. Mas ignorei-o até encontrar o grupo. Éramos agora os homens-pele. Todos os outros eram magros, esguios, de peles de cores diferentes. Azuis, marrom, roxo, vermelho, verde. Todos opacos, com as pontas dos dedos afinadas e unhas de rasgar carne. Dentes capazes de devorar uma espada.
Quando me aproximei todos entramos em transe e cantamos a música do deserto para acalmar as shakaftas. As serpentes do deserto foram cessando em volta. O dia se foi, a noite se foi, o deserto não. Chegamos aos pilares. 300 pilares de pedra de vários tamanhos. Gigantescos. Moradias. Ali é a grande cidade de Kalima. Qualquer lugar fora do mundo.
_Eu, inumano tenho nome. Rotten Beltane.
_Eu, inumano tenho raça. Os Aoqni.
_Eu, inumana tenho ofício. Faço as pessoas encontrarem seu deus.
_Eu, inumano tenho espírito. Sou cavaleiro errante.
_Eu, inumano tenho mente. A Filosofia pagã.
_Eu, inumana tenho carne. A flor da vida.
_Nós, inumanos pedimos abrigo.
Todas as portas para nós se abriram, e depois todas as portas para nós se fecharam. Havia mentira em meus lábios, e o povo do deserto não aceita mentirosos em suas casas. Eles sabiam de onde eu vinha e qual era meu destino. Nós invadimos suas casas, arrancamos deles a verdade, as tripas, e banqueteamos. A vila toda não seria páreo para nossa fome se desejássemos estadia.
O povo da areia tinha medo de nós, e nos dava o que queríamos enquanto nós não os matávamos.
O povo da areia tinha medo de mim, sabiam quem eu era e me queriam bem.
Passamos semanas acampados nas redondezas. Famílias inteiras nós fizemos sofrer. Vimos a tristeza em seus rostos, porque eles mereciam sofrer. Infiéis, incrédulos, mas pior, bandidos e dúbios, desonestos, viviam passando para o lado mais favorecido. Esqueceram a honra do grande reino das Badlands, o maior reino já visto na história.
Com o passar dos dias as diferenças foram aparecendo. Eu sabia ler. Eu sabia escrever. Eu sabia história. Os homens de pele não tinham idéia para que isso serviria pra eles. Eles se comunicavam com sua música, seus desenhos e sua fala. Eles falavam com seus aeons e seus aeons falavam com a terra, eles ERAM a terra. Mas me estimavam demais, pois eu tinha conhecimento. Eles sabiam das coisas.
_Suas palavras fazem sentido em seu mundo, dentro do castelo. Estamos em qualquer lugar fora do mundo, esse lugar não existe em mapa nenhum, em história nenhuma. Os 300 pilares são tudo, menos parte da realidade constante. A cada dia que estamos aqui, mais longe da realidade estamos.
_Eu já percebi isso, desejo continuar aqui e ver o que acontece, sinto muito poder nesse lugar.
_Sinto muito poder em você, cavaleiro. Mas você não consegue usá-lo, está muito abaixo das suas camadas como humano, muito abaixo do seu conhecimento mundano, e você não consegue acreditar nisso.
_NÃO INSULTE-ME. NASCI EM CORPO HUMANO COM ESPÍRITO DE INUMANO.
_Não. Naceste em solo humano, com corpo de maldade e o espírito do universo em ti.
Então comecei a compreender.
_Você é normal, inumano.
_Você é anormal, humano. é natural que humanos sejam diferentes e inumanos iguais. Pensamos igual, pois somos pequena parte de um único pensamento.
_Vá com aquilo que acredita, humano vermelho. Leve Kasandra Kriedz em seu coração, e quando precisares de mim, serei sua pareceira. Se assim for a vontade de meu amor. - Kasandra e Aoqn trocam olhares, um beijo caloroso e desaparecem da minha memória.
Agora eu estava a sós, sem cavalo, sem dádivas e sem rumo. Ao fim da semana, minhas esperanças de melhora entre o povo da areia acabavam e eu precisava me mudar. Quando vi a figura que mudaria meu destino caminhando sobre o horizonte em direção aos montes. Era Revora. Eu sabia seu nome, eu o conhecia desde pequeno, mas nunca o vira, nunca sequer trocara uma palavra com ele. Revora Heoh era meu amigo de sangue, alguém que sempre disse coisas pra mim através do receptor sanguíneo, e que agora conhecerei. Desejos, oportunidades, mulheres, felicidade e morte.
Vejo meu futuro andando sobre o horizonte.

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