terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sádicos



Eu me dei conta de quem eu era dessa vez. Não mais aquele prometido, aquele com um grande futuro. Eu era apenas eu. Eu não tinha nenhum poder, nenhuma habilidade especial. Apenas meu desejo de seguir sempre em frente. Corri.
Os dois me viram e Aoqn veio em minha perseguição. Ele era mais ágil e mais habilidoso que eu dentro daquelas terras, suas terras. Logo me deparei com o abismo: realizei que logo à frente estaria o deserto e para qualquer direção que eu fose, eu cairia no deserto e aí sim minha morte seria certa. Corri e corri, Aoqn atrás de mim como se só estivesse marcando meu ritmo, me fazendo correr pra onde ele queria. O cheiro de madeira molhada, os animais se escondendo com medo daquele barulho dos galhos finos partindo, as folhas roçando em minha pele toda esfaqueada, tatuada e desaurida, tudo isso junto era força maior para me dar maior vontade de ficar. E eu quis ficar. Pensei em desistir e não reagir. Mas a reação do poderoso Aoqn seria uma só: ele me comeria vivo. Talvez literalmente. Ele não aceitaria tal desrespeito. Comecei a lembrar de casa.
Quase 4 anos longe de casa, sem família, sem destino. Retornar faria meus sonhos se tornarem realidade. Sinto falta das rosas verdes, dos lírios azuis, das crianças e da inocência. Ah, como falta da inocência. De repente, caio.
_Esse faz ele durmir.
A última coisa que ouvir antes de desmaiar. Senti só uma leve picada e a voz doce de Kasandra, ainda ofegante.
Em meus sonhos, de frente pra mim estava o fogo em seus cabelos, como uma medusa flamejante que me deixava paralisado em reação ao seu encanto. E eu não queria mais acordar, mas acordei. Meu corpo estava vestido com peles, finalmente. Eles vestiam peles. Nós éramos os animais agora. Levantei minha cabeça, tomei um gole de eulea num coco, e de frente para mim estava o rosto marrom com negro, rajado como os céus em dias de guerra. Sua boca era negra, seus dentes eram verdes e vermelhos em tonalidades dissonantes com alguns em tons amarelo pálido. Eu estava plenamente consciente, pela primeira vez em um mês. Via uma fumaça cinza saindo de sua boca abolicionista enquanto pronunciava palavras deídicas. Seu conhecimento e sua sabedoria sobre a terra, eram perceptíveis apelas pelo seu olhar druídico. Mas as palavras faziam um sentido em minha cabeça, ele parecia estar dizendo a língua da terra, do mofo e dos parasitas.
_Althfazne Bhuajizaine, aboboana meythyiis. Loiuwearingua.
Seu encantamento me dava vida e agora minha vida não era mais passado, era presente. Agora sou.
_Eu, inumano, respeito a hierarquia dos pais unos, e da vida pagã. Eu, inumano, agora entendo o sentido das coisas da terra.
Essas palavras saíram de minha boca como se eu falasse a língua dele. Mas eu as entendi como minha cerimônia de passagem. Tambores começaram a soar. Meu corpo se levantou como devasso em um ritual macabro de bruxaria. A dança das almas começou, nós três envoltos em chamas, num círculo de pedras e fogo e sangue e terra. A natureza toda presente no círculo. E o quinto elemento em seu meio. Sinto-me como uma marionete da mãe natureza, apenas meu corpo se mexe sem que eu mande-o se mexer. Ao entorno do círculo, eu via corpos negros, sombras se movendo, como carvão queimando em fogo. Os tambores rufando, uma percursão divina em meio a um ritual pagão. De qualquer forma, a crença e a fé são sempre divinas.
Corri para cima, sobre as árvores, fui até o último galho, vi-me pra fora do mundo, perto da lua, tocando os deuses, então voltei. Acordei. Não mais preso à mãe terra. Eu era como um fantasma, enquanto o resto dançava lentamente envolta de mim. Eu ouvia a voz me chamando. Era meu pai.
No outro dia de manhã não havia mais nada. Nem oásis, nem pessoas. Só um rastro de pegadas e um E'fila, daqueles cavalos de deserto, para mim. Montei-o e segui viagem pelo rastro. Meu coração dizia insistentemente para seguir na outra direção. Mas ignorei-o até encontrar o grupo. Éramos agora os homens-pele. Todos os outros eram magros, esguios, de peles de cores diferentes. Azuis, marrom, roxo, vermelho, verde. Todos opacos, com as pontas dos dedos afinadas e unhas de rasgar carne. Dentes capazes de devorar uma espada.
Quando me aproximei todos entramos em transe e cantamos a música do deserto para acalmar as shakaftas. As serpentes do deserto foram cessando em volta. O dia se foi, a noite se foi, o deserto não. Chegamos aos pilares. 300 pilares de pedra de vários tamanhos. Gigantescos. Moradias. Ali é a grande cidade de Kalima. Qualquer lugar fora do mundo.
_Eu, inumano tenho nome. Rotten Beltane.
_Eu, inumano tenho raça. Os Aoqni.
_Eu, inumana tenho ofício. Faço as pessoas encontrarem seu deus.
_Eu, inumano tenho espírito. Sou cavaleiro errante.
_Eu, inumano tenho mente. A Filosofia pagã.
_Eu, inumana tenho carne. A flor da vida.
_Nós, inumanos pedimos abrigo.
Todas as portas para nós se abriram, e depois todas as portas para nós se fecharam. Havia mentira em meus lábios, e o povo do deserto não aceita mentirosos em suas casas. Eles sabiam de onde eu vinha e qual era meu destino. Nós invadimos suas casas, arrancamos deles a verdade, as tripas, e banqueteamos. A vila toda não seria páreo para nossa fome se desejássemos estadia.
O povo da areia tinha medo de nós, e nos dava o que queríamos enquanto nós não os matávamos.
O povo da areia tinha medo de mim, sabiam quem eu era e me queriam bem.
Passamos semanas acampados nas redondezas. Famílias inteiras nós fizemos sofrer. Vimos a tristeza em seus rostos, porque eles mereciam sofrer. Infiéis, incrédulos, mas pior, bandidos e dúbios, desonestos, viviam passando para o lado mais favorecido. Esqueceram a honra do grande reino das Badlands, o maior reino já visto na história.
Com o passar dos dias as diferenças foram aparecendo. Eu sabia ler. Eu sabia escrever. Eu sabia história. Os homens de pele não tinham idéia para que isso serviria pra eles. Eles se comunicavam com sua música, seus desenhos e sua fala. Eles falavam com seus aeons e seus aeons falavam com a terra, eles ERAM a terra. Mas me estimavam demais, pois eu tinha conhecimento. Eles sabiam das coisas.
_Suas palavras fazem sentido em seu mundo, dentro do castelo. Estamos em qualquer lugar fora do mundo, esse lugar não existe em mapa nenhum, em história nenhuma. Os 300 pilares são tudo, menos parte da realidade constante. A cada dia que estamos aqui, mais longe da realidade estamos.
_Eu já percebi isso, desejo continuar aqui e ver o que acontece, sinto muito poder nesse lugar.
_Sinto muito poder em você, cavaleiro. Mas você não consegue usá-lo, está muito abaixo das suas camadas como humano, muito abaixo do seu conhecimento mundano, e você não consegue acreditar nisso.
_NÃO INSULTE-ME. NASCI EM CORPO HUMANO COM ESPÍRITO DE INUMANO.
_Não. Naceste em solo humano, com corpo de maldade e o espírito do universo em ti.
Então comecei a compreender.
_Você é normal, inumano.
_Você é anormal, humano. é natural que humanos sejam diferentes e inumanos iguais. Pensamos igual, pois somos pequena parte de um único pensamento.
_Vá com aquilo que acredita, humano vermelho. Leve Kasandra Kriedz em seu coração, e quando precisares de mim, serei sua pareceira. Se assim for a vontade de meu amor. - Kasandra e Aoqn trocam olhares, um beijo caloroso e desaparecem da minha memória.
Agora eu estava a sós, sem cavalo, sem dádivas e sem rumo. Ao fim da semana, minhas esperanças de melhora entre o povo da areia acabavam e eu precisava me mudar. Quando vi a figura que mudaria meu destino caminhando sobre o horizonte em direção aos montes. Era Revora. Eu sabia seu nome, eu o conhecia desde pequeno, mas nunca o vira, nunca sequer trocara uma palavra com ele. Revora Heoh era meu amigo de sangue, alguém que sempre disse coisas pra mim através do receptor sanguíneo, e que agora conhecerei. Desejos, oportunidades, mulheres, felicidade e morte.
Vejo meu futuro andando sobre o horizonte.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Una


"Os padres não tem casa. Não temos direito a posses nem a nada que nos prenda ao mundo mortal. Só o conhecimento. Os livros, as frases, nossos amigos, nossos aliados, nosso poder. A imprensa, o poder de redigir, ler e denunciar os males. O direito de vagar plenamente entre as casas das pessoas. O direito de reproduzir nossa raça única. Os intelectuais. Somos os únicos. Os racionais."

"Não sei como as coisas começaram a acontecer assim pra mim, mas meu nome não é de indagações. Todos sabem que sou. Em Oth-Hor, sou desafiado a cada esquina, pra cada ser existente, há um que já perdeu uma batalha pra mim. Reduzi a população do reino sozinho. Agora sou cavaleiro errante do reino perdido. Não tenho cavalos, não tenho dinheiro para comprá-los. Mas minhas habilidades como pit-fighter são suficientes." _Rotten Beltane

"Quando o conheci era um convencido metido. Hoje ele se acha convicto metido." _Revora Heoh

"Minhas aventuras com ele começaram há alguns anos atrás. Éramos jovens demais para entender o mundo e seus guisames estranhos e desenrolos malévolos, mas não jovens demais para matar."_Kasandra Kriedz, The Killer

Mal fugi de casa e já não tinha mais pra onde ir, eu era um bastardo, todos falavam mal de mim e escarnavam meu nome. Era um mendigo, um garoto sem futuro. Um palhaço de um circo morto. Eu devia estar na igreja, devia ser redator, leitor, crítico, grande influente nas artes. Mas um homem ainda pode mudar seu destino. Não lembro quando nem por que caminhos perambulei até encontrar aquelas mãos, aqueles dedos. Mas lembro-me do dia. Eu morria, estava sem água há 3 dias, sem comida há 6. As serpentes douradas, shakaftas, perambulavam, corriam, me esmagavam os pensamentos, e a visão, que só via shakaftas por todo o horizonte resplandencente e indigno. E ouvia vozes serpenculares em meus sonhos, em meus pesadelos acordados, em meu sonambulismo diário:
_Ei, humano. Desista. Saia. Morra.
_Ei, humano, você não é páreo para o deserto.
_Ei, humano, fuja daqui, você não é para nós.
_Ei, humano, deite-se, deleite-se com minha sombra.
_Eu, humano, os desafio a me derrotarem. Eu, humano, domino minhas vontades.
Corria, morria de cansaço. Agora que as drogas não fazem mais efeito em mim, agora que não tenho mais nada pela chuva ou pela noite, que não me sinto mais tão forte, agora tenho vontade de ficar aqui em minha cela. Sentei-me em minha cela. Uma cela de pedra, com sombra por metade do dia. Mais um dia de desespero. Mais um sono congelante, uma noite perturbada.
Acordo na floresta, molhado, manchado, com um machado ao lado, nu e machucado. Vejo duas silhuetas contra a luz de uma fogueira. Um moreno, magro, esguio e nu. Um branco, magro, esgui e nu. O moreno diz algumas palavras, toca no sexo do outro e foge.
Estou sendo tratado por um animal. Ela me injeta venenos, ela os testa em mim, mas por algum motivo sobrevivo. Eu, agora desumano, sobrevivo.
_Gosto de como você se contorce todos os dias, com os efeitos passados de dias anteriores.
_Gosto de como vocês se amam, de como vocês se tocam e como vocês precisam um do outro.
_Gosto de como você nos observa. É estranho, e divertido te torturar.
_Gosto de como vocês me tratam, sem saber quem sou.
Eu, objeto, era imóvel. Satisfazia minhas vontades ali, em mim mesmo. O moreno vinha e me tocava, recitava poesias, me rasgava com suas grotescas unhas azuis e desenhava em mim com sangue. Eu era como um vegetal, mal falava, mal pensava. O dia inteiro, todos os dias, vivo sob efeito das drogas. Não sei se estava mais vivo ou mais morto, talvez fosse apenas os efeitos tardios das drogas que me mantivessem vivo, àquela altura.
Um dia eles não voltaram mais. Pude acordar então de meu sono. Pude então ver o mundo com outros olhos. Pude então ver que eu era de fato resistente, insistente, caucitrante, latente. Me debrucei sobre os restos da fogueira. Havia uma pequena cabana com coisas pessoas. E havia gritos o tempo todo. Levei dois dias até que consguisse ficar de pé novamente. Havia gritos e êxtase e devassidão, misturados com gritos de dor e lamento.
Caminhei, vi que me encontrava num oásis. Cada inseto ali eu já conhecia, cada ramo de planta eu já tinha provado. Cada grito, eu já ouvira antes. Era sexo. E traição. E fogo. E paixão. Uma antiga tradição, um ritual de sangue.
El Aoqn - Pai da religião pagã, amante da matadora Kriedz. Um amor belo como o fogo numa cidade em ruínas. Eu me senti perdido e cego. Caí de joelhos e os gritos pararam.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ex Caput Capitis Pessum


Ano I da primeira Aia: Surgem os seres celestes, moradores dos céus e das estrelas. Os pais dos Senhores da Terra. Cada senhor teria o poder sobre uma parte do universo. Seus reinos se extendiam até onde bem entendessem, ou fosse limitado pelos reinos alheios.
Ano III: Os seres humanos surgem durante uma guerra entre os Pais Celestes. Os Senhores agora são os seres mais poderosos do universo, numerosos e diversos o suficiente para ocupar todo o espaço.
Ano 132: Os seres humanos se fixam em uma única região habitável dentro de todo o resto do universo. Os Senhores brigam entre si, pois o espaço é limitado...


"Haviam milhares de senhores... um para cada estrela no céu. Nós homens éramos seu maior esmo. Cada um cultivava seus próprios servos e criados. Quando nós descobrimos que só nesse pedaço de terra eramos capazes de sobreviver houve uma guerra. A maior guerra que já se teve menção. Todos os Senhores queriam o seu lugar dentre os homens, mas poucos conseguiram. Os céus caíam, as estrelas se destruíam, os Sóis partiram, nos deixando sem luz e calor por anos. Quase fomos extintos. Muitas espécies de animais morreram, mas dentre as que sobraram, se juntaram aos seres da terra e mostraram aos homens a magia. A própria energia pulsante da terra deu de presente aos homens a magia para que pudessem sobreviver e protegê-la das guerras. E assim foi. O sangue que caía na terra era como um escudo indefectível, protegendo a terra e as plantas e os animais. Foram 66 anos de guerras intermináveis. Até que os homens aprenderam a domar os Senhores, através da fé."
_Broda Macht, O Mestre das Histórias e Rei das Maçãs.