
Dormimos na biblioteca de Krauter. Eu e Lurya passamos a noite vasculhando sobre Theron e encontramos seus pergaminhos, pedaços de sua história que ele envia de tempos em tempos para casa. Começa com este:
“Dias de ruína, noites de glória.
Minha alma pede por redenção.
Somos apenas detalhes da história,
Sob morte, fogo e paixão”. _Urien I
"Acordei durante um sonho estranho, sonho de dragão, sobre fogo e sangue, morte e carne. Antes de olhar pela janela pétrea de cortinas grossas, passei a mão sob minha longa trança, que cultivava desde que me dei por mim. De olhos arregalados tento ver além do escuro do quarto longo e gelado que me encontro. Um singelo facho da luz da lua se posta aos pés de minha cama, entre meu dormitório e o de Ichor. As cortinas vermelhas balançam e deixam à mostra parte do resto do quarto.
Paredes altas, cinco ou seis vezes maiores que eu em altura, de pedra cinza, como eram os castelos naquela época. Eu conhecia cada centímetro daquele lugar, mesmo no escuro, e sabia que Mellany se deitava a cinco passos de minha direita. Sentia um cheiro de carniça no ar e pensei que talvez fosse os restos da barbárie de ontem, mas não era, e nem me dei conta disso novamente naquele momento.
_Ichor, acorda logo! – e eu o sacudia pelos cabelos.
_O que? O que? Já é manhã? Papai está a chamar para a cavalgada?
_Não! Tive um sonho... Sonho de dragão que tenho... Você sabe...
_Ah, Theron... Toda vez tem que me acordar? Vá falar com tua irmã favorita!
_Sim, sei que disse isso ontem, mas tu és meu melhor irmão! Homem, claro... Veja, tu és o único que tem maturidade como eu! – eu sorria falso tentando convencê-lo e meus dentes reluziam de azul claro.
_Vá procurar papai! A essas horas ele deve estar a beber e a comemorar a rendição dos guerreiros de Auter. Tu, que gostas de conhaques e cervejas, que vá... – Ichor tinha um tom perspicaz e desafiador comigo a essas horas da noite.
_ Já disse que gosto do CHEIRO dos conhaques do papai... Não me chame de beberrão, não tenho idade ainda para isso!
_Pois não é o que tu dizias na semana passada! – Meu irmão mais velho sempre pensava demais, não entendo como ele poderia ser rei!
_Oras! Já bebeste dos conhaques Russos que papai guarda com carinho? O mais leve cheiro daquele líquido já o embriaga, imagina quando se toma uma dose então! E além do mais, papai me enganou aquela noite, ele me deu da fada e não do bode.
_Ah, Theron! Tu não cansas de discutir e argumentar... Diga o que quer de minha pobre alma essa noite?
_Ah, querido irmão! Quero que venhas comigo até fora do castelo...
_Está um frio terrível! O que queres fora do castelo?
_Sinto cheiro de carniça, devem estar amontoando os restos da barbárie! Vamos, talvez consigamos algum elmo de um capitão ou sua espada ou escudo! Quero completar meu colar com um olho vermelho, esses ‘povos silvestres’ costumam ter olhos assim pelo que ouvi dizer!
_Éeeaah! Isso seria uma boa idéia! Ainda preciso de anéis que não sejam com o símbolo real! Mas será que tais olhos ‘preciosos’, que procuras há tanto tempo serão encontrados no meio de uma pilha de corpos de homens do mato?
_Mas é claro que sim! Eles conquistam, acumulam as riquezas dos reinos que derrotam claro! Imagino o que eles não terão lá!
Irmãos se arrumam cautelosamente em meio aos fachos de luz azul que penetrava até o fundo do aeon. Imp (ar) rodeando e trazendo mais fortemente o cheiro ascendente da morte evidente, uma visão de um futuro recente pronto para disparar um gatilho, desencadeando uma série de acontecimentos vistosos e não comuns.
_Onde vocês dois querem ir a essas... Noites? A Una ainda nos cobre com seu véu...
_Shhhh! Lilith! Ninguém sabe de nada! Shh! – Lilith não era seu nome, a branquela fazia questão de ser chamada assim quando mais nova. A cerimônia das Revedances que iria determinar seu nome verdadeiro ocorreria só daqui há 2 semanas.
_Que putrefato cheiro é este?
_Devem ser os corpos queimando lá embaixo! Theron disse algo sobre bárbaros... Nós vamos lá para ver com nossos próprios olhos.
_E o que esperam encontrar em meio aos corpos mortos? Já não se cansam de ver mortes nas Liças?
_Vamos perscrutar o que pode ser de interesse real nesse caso fatídico. Não conte nada a ninguém, votaremos rápido.
Eu e Ichor saímos no corredor estreito logo fora do quarto, à direita as escadas para baixo e à esquerda as escadas para cima. Fui à frente, mal vendo o caminho a essas horas da noite.
Descendo as escadas o cheiro ia só piorando. Nos andares abaixo é estranho, não há criados fazendo atividades noturnas. As escadas, sempre em espiral com corrimão de metal, impedem a visão de onde estamos indo. Por isso o segredo durou mais alguns minutos. E alguns andares até que uma das salas estivesse acesa.
_Ichor! SHhh! SUBA! IDJA, IDJA!!!!
_Mas... O que se passa, irmão?
_Idja, Idja! Corra, chame Lilith e Mellany, nós vamos pro abrigo! Já! – Desesperado, eu tentava não gritar ao ver aquela cena pitoresca.
_Mas... O que?
Meu irmão não teve tempo de presenciar a sala de comunhão de leitura, pintada com o sangue dos criados e decorado com tripas e corpos. Dois homens em pé, com armaduras azuis, cabelos reluzindo de vermelho com a luz das velas e do sangue morto em suas vestes. Por cima de suas armaduras cada um trazia um meio-manto de cavaleiro, cada um com um emblema de guerra diferente, o que dizia que cada um tinha um posto diferente. Um cavalo empinado mordendo uma espada dizia que este era um sanguinário, um guerreiro herético, líder dos grupos de batalha. O outro trazia duas mãos carregando uma foice e um martelo, o símbolo da igreja, o que mostrava que este era um Inerte baixo, provavelmente um Impetuoso ou um Nóduo. Os Impetuosos não tem obrigações tão rígidas, e os Nóduos são os braços e pernas da Igreja, vivem de fazer o trabalho sujo. Isso significava a morte para nós quatro se fôssemos encontrados.
Tal desgraça já era prevista: a morte das famílias reais, o fim da era de Krauter, a morte dos reis guerreiros. Uma profecia da época do Dexteriorum, proferida pela própria mulher que desenvolveu o caminho para o Dexteriorum, já era esperada há anos. Não acredito que sou o filho desta mesma profecia. Como uma fábula ou os contos sobre os grandes reis do passado, sempre há lendas para atormentar o presente dos homens. Vivíamos dentro daquele sonho, sonhado por uma sonhadora poderosa há muitos anos atrás.
Rogam os mendigos por aí, mais ou menos assim:
“A espada de Ista Qestu há de devorar os reis e seus reinos; todos estão fadados ao famigerado monstro que trará o fim. Apenas os quatro filhos do maior rei sobreviverão para dar início ao fim da era de reis, iniciando a era do grande Império”.
Mal conheço rei destes tempos que tenha quatro filhos. Há muito os reis decidiram, em um pacto, não permitir que haja famílias reais com apenas quatro filhos... Desde então os reis possuem várias cucumbinas para dar-lhes mais filhos sempre. Apenas o rei de Krauter tem quatro filhos, sempre duvidamos da veracidade desse número, mas já nos guarnecemos há muitos anos por tradição.
_És louco irmão? – esbravejou comigo a princesinha de olhos verdes.
_Mas não! Nem me julgue! Vamos ao alçapão, rápido! Há homens no castelo, acho que são ladrões.
_Como ladrões? Não disse que papai estava lá em baixo a queimar corpos da barbárie? Como ladrões passaram pela fortaleza? – Ichor sempre muito racional.
_Oras, de forma que é claramente possível que não tenham visto, se eles vieram do oeste Ichor, lá não tem muita visibilidade estas horas!
_Ah, deveras...
_Mas, irmão, maldito! Se isto for outra de suas peças, juro que... Que... – As ameaças da ruiva de três anos não eram tão ameaçadoras assim.
_Vou pegar suprimentos, vocês me esperem lá!
_Mas lá já há suprimentos irmão, você mesmo fez questão de que papai enchesse a dispensa ontem – Ichor, racionalmente idiota.
_É verdade, então vou pegar... Vou só checar a dispensa!
_O que vai fazer irmão? Estou assustada! – Mellany é quem sempre se assume com medo primeiro.
_Tudo bem, não são ladrões, são soldados, dois, mataram os criados e agora eu vou lá matá-los para vingar-nos tudo bem?
_Isso... É... Verdade, irmão? Porque se for... – As crianças do castelo eram muito acostumadas com a morte, famílias grandes e poderosas são, freqüentemente, alvo de afrontas e toda semana há notícias de morte na família. Lilith era quem mais se preocupava sobre essas mortes, apesar de não parecer.
_Não! Claro que não é! Estou dizendo isso para que vocês andem logo! Idja, Idja!
_Idja irmão! Não se demore então! – Ichor gostava de não entender nada.
_ESPERA! É verdade ou não? – Mellany, sempre curiosa.
_CLARO QUE NÃO!
_Ah, se assim tudo bem então. Mas o que vai fazer?
_Pegar as espadas – Minha cara de prazer ao dizer espadas é inevitável.
_Para que?
_Para cozinhar! Horas! Pra que se usam espadas? Pra nos defender caso seja preciso! Idja, Idja! Já perdemos tempo demás.
_Idja irmão. – Responderam em coro.
Desci as escadas correndo até o andar debaixo, o andar das nossas coisas. Havia um andar só para nossas roupas e instrumentos e todo tipo de coisa que usássemos. Cada um tinha seu próprio quarto e havia um quarto de comunhão, onde praticávamos aulas de esgrima e conhecimento de artes marciais. As escadas, desse lado da torre, eram daquelas totalmente feitas em pedra e com detalhes em metal na parede, que formavam um corrimão. As escadas davam sempre no corredor do andar e no fim dele havia a escada para o próximo andar e assim era por toda essa nossa torre norte.
A luz azul da Una entrava por filetes abertos para respirar. O corredor forrado com um manto roxo e prateado, feito em pedras contrastantes em preto e branco, havia candelabros a cada 10 passos, e caminhava-se sobre o veludo do pano roxo que cobria o chão e o teto. Nas paredes as “Inerciais”, esculpidas sobre pedra, eram nossos selos de proteção. A porta que dava acesso às salas era em pedra como se não houvesse porta ali, protegida com uma magia. A senha fazia a pedra se mover em várias direções, para cada palavra dita havia um movimento programado, de forma que se a senha correta não fosse dada corretamente a porta estaria completamente lacrada. Cada um tinha sua própria senha, que abria a porta a uma câmara diferente, a minha era:
_A, B, C, D, um, dois, três!
E assim o véu da porta se abre, ela se abre como uma janela cruciforme para mim, subindo e dando acesso ao corredor que tinha um piso liso e coberto de pó de pedra cinza; As paredes todas lisas e quadradas davam na porta, também quadrada, que era fechada com um véu negro que só se abria com outra senha. Havia um corredor central, com ladrilhos laranja e brancos, dispostos no chão e tapeçarias vermelhas com dourado nas paredes. Eu sabia disso, mas via os ladrilhos em azul e cinza e as tapeçarias em negro e prata, pela falta de iluminação.
O corredor dividia-se em três, formando um corredor em forma de cruz. No fim de cada extremidade, havia duas salas. Mellany e Lilith à direita, como as damas sempre ficam, à esquerda eu e Ichor. À frente, a sala secreta de papai e a sala comunal. Corri direto para a sala comunal e repeti minha senha pessoal. Havia um ar meio sarraceno, meio pesado em volta de mim. Eu podia sentir os homens nos andares abaixo, havia muita magia dentro dos meus ensinamentos e também dentro daqueles corredores. Eu podia sentir a magia divina, e a magia do sangue daqueles dois a quatro, talvez três andares abaixo.
Comecei a ouvir os passos na escada. Andei cautelosamente até o centro da cruz que formavam os corredores; se elevava acima de mim uma abóbada dourada com o símbolo de Krauter, “As maçãs do paraíso, atravessadas pela cruz e a espada” com as iniciais K e R
Sentei-me ali no meio da cruz, me desesperei, resolvi que era hora de ser cauteloso e me portar como um futuro membro da igreja. Pus meus conhecimentos à prova e comecei o ritual de invocação dos Sidhe. Nunca havia conseguido invocá-los, aparecem quando querem, mas aquela seria uma excelente hora para aparecerem! Os dois estavam presos no véu da entrada, mas eu sabia que não levaria muito tempo para que eles pudessem transpor a magia de entrada. Eu me distraí por alguns momentos pensando no que seria de mim se não conseguisse invocar os espíritos ancestrais, assim falhei ao invocar os espíritos Sidhe. Corri o mais rápido que pude e consegui chegar à sala comunal.
Ali dentro eu me sentia seguro, era uma porta de pedra, maciça. Era uma câmara hexagonal, em cada canto havia uma pequena fresta no topo que deixava pouca luz entrar. Tudo estava escuro, havia almofadas de várias cores no chão, mas eu as via todas cinza assim como os véus sobre os livros e as cortinas em fronte às pilhas de livros e roupas. Cuidadosamente armados ali havia dois palcos, um de lutas e um de atuações. Havia um grande baú com dois baús menores logo à minha frente. Eu sabia. Sabia que havia um grande baú em algum lugar. Mas naquela luz, só me lembro das posições e lugares de lutas. Vasculhei a parede à minha direita, tropeçando em roupas e cadernos com penas mal amontoados, procurei a chave nas frestas que consegui enxergar naquela péssima iluminação, procurei também por velas, mas não dou altura nos candelabros. Mal via para onde andava quando chutei algo mais duro que a parede e me deparei com o baú que procurava.
Com a chave, que achei dentro de um dos livros de feitiçaria escrito em gaulês, abri-o e me deparei com a minha espada e a espada de meu irmão. E o pêndulo de Mellany, o livro de desenhos de Lilith e um lugar vazio, onde deveria estar o escudo de Theron, meu irmão mais velho que está em viagem.
Comecei a ouvir as pancadas na porta, me tremi e tentei me controlar. Peguei as espadas, e os outros objetos encantados e coloquei estes numa bolsa. Empunhei as duas espadas e preparei meu espírito para não morrer ali. Logo o silêncio irrompeu meus pensamentos, minha mente se clareou e assim eu estava preparado para qualquer batalha. As batidas na porta cessaram, pensei que o pior estava por vir. Eu estava certo, senti um tremor rápido ecoando pelas paredes do castelo, quase me desequilibrei e então parou.
Ao fundo comecei a ouvir um uivo, assemelhava-se à música, um dos encantamentos mais travessos já inventado pelo homem; Ouvi dois baques surdos, como corpos caindo no chão e a música aumentando sua intensidade e força, eu me sentia encantado, era Ichor tocando. A música parou e pude ouvir apenas sua senha pronunciada, passando levemente pelas frestas de ar. A porta se abrira e os dois estavam caídos no chão com tímpanos estourados, deitados sobre poças de sangue.
_Vamos correr, logo eles acordarão da ilusão.
_Ah Ichor, toque aquela música que fizemos outro dia! – Eu já estava sobre seu terrível encanto musical.
_Cale-se! Idja, idja!
_Ah sim, mas toque, toque mais...
A melodia ecoou pelo castelo enquanto corríamos. Eu já não sabia o que era efeito da música e o que era apenas imaginação. Mesmo depois de parar de tocar, eu continuava sobre o efeito da melodia. Durante esse tempo não sei o que era real ou encantamento, minha memória falha fortemente nesse ponto do relato."
Fim do primeiro Pergaminho.

