domingo, 16 de março de 2008

Dentro do olho dilatado



"Dies iræ, dies illa,
Solvet sæclum in favilla,
Teste David cum Sibylla

Dia da Ira, aquele dia
Em que os séculos se desfarão em cinzas,
Testificam Davi e Sibyla !"


Hoje, nos deitamos sobre camas macias, porque merecemos isso, nosso sangue e suor desenfreados insurgem ao nosso clamor de amor pelas batalhas. Meu treinamento se passou muito rápido, eu já sabia matar. Havia aprendido com Kasandra e os inumanos.
Nossos poderes estavam além da magia simples dos bruxos, dos rituais da Igreja Una, as crenças do Patolicismo ou dos encantamentos druídicos. Nossa missão era imbuída de grandes capacidades físicas e mentais, que suprimiam nossos desejos existenciais com o ardor irrefreável das batalhas, uma após a outra, e outra e outra. Temos o poder do sangue, que pulsa dentro de nós e chora por honra, sempre que vencemos. Vivemos de carne humana, inumana, animal, extraterrestre e de qualquer forma que se apresente para nós. Eu, homem rei, homem-de-venenos, inumano, homem vermelho, homem da areia, agora era um Cinema, um lutador das Liças.

O "Satélite Vjun" é o nosso palácio, 303 homens de comprimento de um portão até o outro. Visto do lado externo é uma construção magnífica, como uma pirâmide cinza e vermelha, fedorenta de sangue, de cabeça para baixo, encrustada na terra azul, com 33 homens de altura para fora da terra, tem 3 andares subterrâneos e 7 galerias que completam a arquitetura babilônica do grande coliseu das lutas. Suas paredes são feitas de minério seco, totalmente lisas, sem um encontro ou rachadura, como uma pedra lapidada, esculpida em metal sólido. Quatro grandes entradas, com portões duplos, de madeira vermelha de sangue, cada um virado para um ponto cardeal, marcado em auto-relevo com o brasão dos fundadores: Bakulla, Ngwindjië, Ogait e o próprio Melio Patrono, o último rei de chariur. Uma "Cicatriz entalhada sobre pavão" o símbolo de Bakulla, o tão conhecido "Doente contador de histórias" muito simpático e trevoroso de Ngwindjië, o nada de Ogait e a cruz e a espada de Melio, são de estremecer qualquer coração que já tivesse entrado naquele lugar.
A "pirâmide resvalecente" é conhecida popularmente como Arena Phirexiana, onde grandes nomes surgiram durante toda a história dos reinos. Elderon Alter, o rei que unificou as Badlands no maior reino de todos os contos, começou conquistando as massas sedentas por sangue, dentro da Arena. Broda Macht derrotou seus inimigos na Arena antes de entrar em guerra contra os reinos exteriores. El Aoqn e Kasandra são muito vistos pelas outras arenas, nunca os vi por aqui.
Nesses tempos comecei a vagar e conhecer grandes pessoas, minha mente divagava sobre pensamentos inexistenciais, sobre meu futuro e sobre o poder que eu desejava.
Lurya é minha parceira nas arenas, nós praticamente moramos no reino de krauter, praticamos e lutamos lá. Conhecemos muitas pessoas e fizemos muitas missões aliadas dentro do reino inimigo, freqüentando o palácio e a residência de Ichor. Conhecemos os irmãos reais, a última casa famigerada de sangue azul: Ichor, Mellany e a Branquela sem nome. Havia mais um, Theron, que havia se perdido nas entranhas do mundo. Fugiu da responsabilidade de ser um Impetuoso, o cargo mais comum da igreja. O relato da história destes irmãos é triste e me deixou consternado com a audácia de Theron ao fugir.
_A família Kith de Dauntain precisa de um líder forte, alguém que possa mandar e desmandar, estando certo ou errado, e que as pessoas o obedeçam.

_Ichor é meio fajuto... Até eu mando nele quando quero... às vezes. - A branquela irrompeu o silêncio depois de minha proclamação.
_Não é pra tanto. Mas é verdade que precisamos do ego de Theron. Urien I, O Grande Caçador era seu nome como rei interino, e os camponeses ainda acreditam que ele está em viajem tratando de casamento. Seu ego nunca o deixaria fazê-lo, divergir atrás de mulheres em detrimento do reino. Seu ego era tão grande que sustentava o reino falindo e conseguiu, mesmo novo demais para lagar das amas de leite, reerguer o reino e protegê-lo por 10 anos. - Ichor defendia o irmão pelas costas.
_Erm.... o.0 ainda não entendi direito como tudo isso aconteceu à vocês. Vocês são mesmo família real direta? Não dá pra acreditar.... mas se vocês dizem tal... - Lurya era uma mestra em diplomacia com esse tipo de pessoas.
_SIM! Nós somos a única família real de todo o país! Existe uma princesa em oth-hor, mas as pessoas de lá a devorariam viva se ela resolvesse abrir a boca para qualquer coisa. Somos a única família real de verdade. - Enfurecida, consternada, com seu ego machucado, Mellany dava o ar da graça nessa discussão.
_De qualquer forma precisam de Theron ;] talvez eu saiba onde possam encontrá-lo, mas isso só depende da vossa vontade de me recompensar generosamente, majestades.
_Sou o "encarregado", de qualquer forma. Diga o que queres, Bravo?
_Uma rainha.
[...]
Aquele momento ficou gravado em minha mente para sempre. A resposta foi nula. Não me lembro mais o que discutimos ou fizemos o resto do dia. Mas aquele silêncio secular foi mais que suficiente para me fazer entender onde era meu lugar. Segui minhas intuições e crenças. Fui convidado para uma festa de anos dos Kith, a família real e seus conselheiros e amigos íntimos. Mas não me lembro de nada mais. Só daquele silêncio devastador e arrepiante que cruzou minha espinha de cima a baixo, destrinchando cada polegada de minha consciência. O que eu era, o que eu queria? A quem estava pedindo isso? Porque?
E essa pergunta ecoou no silêncio. E no silêncio encontrei a morte. Minha consciência conheceu a vida novamente quando encontrei-me perdidamente apaixonado. Uma paixão louca desenfreada, vermelha, ardente e psicótica. As palavras de Sibyla me faziam delirar em uma loucura vil e muito bem estruturada. Por um mês perdi meu tempo com tais encantamentos. Aquele desejo de tê-la não existia, as palavras e versos proferidos por sua pequena boca me exaltavam mais do que a emoção de tocar-lhe os seios fartos. Eu era sua marionete, seu invólucro protetor. Era todo o tempo para ela. Quando num choque de consciência, recebi novamente a visão.
Renasci, amei muito. Por muito pouco tempo. Em morte, vi no outro mundo os desejos secretos das mentes loucas dos deuses. Tive por uma fração de piscar de olhos o que era planejado para o meu destino. Soube naquele instante que eu poderia mudá-lo. De uma paixão engatinhei a outra. Lurya me encantava, e eu a desejava. Mas eu estava morto.
Quando retornei à consciência, percebi um lapso temporal. Eu havia criado dentro de mim um outro ser. Haviamos dois de mim, um morto e um renascido, e eu, morto, não conseguia falar nada audível às pessoas. Mas ELE ouvia meus gritos de pânico, ouvia tão altos que raras vezes eu conseguia tomar o controle e despojar sobre o mundo o poder das minhas cordas vocais e de minhas lágrimas de morte e de desespero.
Toda a farsa que eu havia criado, agora era contra mim e eu não podia fugir dela. Fugir dela era a morte definitiva de corpo e aeon. E eu simplesmente não podia fugir. Como fugir de mim mesmo?
Por meses eu vivi apenas acumulando forças para quebrar aquele selo e remover a mentira estampada em minha face traiçoeira. Todos os dias de minha vida eu me duvidava sobre o que fazer de mim. Até que comecei a duvidar de mim mesmo, e comecei a me perder. Cheguei ao ponto de não saber se eu era a máscara que eu havia criado ou se eu era o criador.
Vivi sem viver por logos meses. Até que Revora se mostrou um grande companheiro.
Lurya havia penetrado tão profundamente em meu coração, enquanto eu lutava contra mim mesmo, que antes que eu pudesse perceber já a amava mais que a minha própria vida. Foi Revora que me salvou novamente. Eu podia conversar com ele sobre qualquer coisa.
Entre um acesso de loucura e outro, eu começava a entender melhor as mentes alheias. Eu agora recebia a Visão sempre, como um sexto sentido sobre quase tudo que acontecia ao meu redor. Eu tinha medo de mim mesmo. Mas acima de tudo, eu tinha medo de amar.
Daqui em diante eu era uma nova pessoa, e como uma nova pessoa, uma nova perspectiva de visão. Eu começava a julgar as pessoas de outra maneira e assim, construía meu caráter.
Meu ego não era mais nada. Eu não tinha mais uma rainha, havia perdido meu trono. Eu não poderia mais ser nada na vida, pensei. Mas Revora me fez perceber que eu poderia tomar meu reino de volta.
Nada poderia me impedir de realizar tal feito. Eu era novamente Urien I, o Grande Caçador.
E como tal, agora eu era Rei das Lutas de Liças.
Nunca houve desafio que eu não conseguisse vencer com meu ego. Eu precisava dele, pois só metade de mim vivia e meu ego preencheria a outra metade, enquanto mantinha afastado o amor por Lurya. Taad se aproximou de mim e disse:
_Estou com você, conte comigo, meu amigo.
Então finalmente comecei a entender o que fazer com a amizade.

"Oro supplex et acclinis,
cor contritum quasi cinis,
gere curam mei finis.

Oro-te, rogo a Ti de joelhos,
com o coração contrito em cinzas,
cuide do meu fim."

_ do hino: Dies Irae, Thomas de Celano

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