quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Una


"Os padres não tem casa. Não temos direito a posses nem a nada que nos prenda ao mundo mortal. Só o conhecimento. Os livros, as frases, nossos amigos, nossos aliados, nosso poder. A imprensa, o poder de redigir, ler e denunciar os males. O direito de vagar plenamente entre as casas das pessoas. O direito de reproduzir nossa raça única. Os intelectuais. Somos os únicos. Os racionais."

"Não sei como as coisas começaram a acontecer assim pra mim, mas meu nome não é de indagações. Todos sabem que sou. Em Oth-Hor, sou desafiado a cada esquina, pra cada ser existente, há um que já perdeu uma batalha pra mim. Reduzi a população do reino sozinho. Agora sou cavaleiro errante do reino perdido. Não tenho cavalos, não tenho dinheiro para comprá-los. Mas minhas habilidades como pit-fighter são suficientes." _Rotten Beltane

"Quando o conheci era um convencido metido. Hoje ele se acha convicto metido." _Revora Heoh

"Minhas aventuras com ele começaram há alguns anos atrás. Éramos jovens demais para entender o mundo e seus guisames estranhos e desenrolos malévolos, mas não jovens demais para matar."_Kasandra Kriedz, The Killer

Mal fugi de casa e já não tinha mais pra onde ir, eu era um bastardo, todos falavam mal de mim e escarnavam meu nome. Era um mendigo, um garoto sem futuro. Um palhaço de um circo morto. Eu devia estar na igreja, devia ser redator, leitor, crítico, grande influente nas artes. Mas um homem ainda pode mudar seu destino. Não lembro quando nem por que caminhos perambulei até encontrar aquelas mãos, aqueles dedos. Mas lembro-me do dia. Eu morria, estava sem água há 3 dias, sem comida há 6. As serpentes douradas, shakaftas, perambulavam, corriam, me esmagavam os pensamentos, e a visão, que só via shakaftas por todo o horizonte resplandencente e indigno. E ouvia vozes serpenculares em meus sonhos, em meus pesadelos acordados, em meu sonambulismo diário:
_Ei, humano. Desista. Saia. Morra.
_Ei, humano, você não é páreo para o deserto.
_Ei, humano, fuja daqui, você não é para nós.
_Ei, humano, deite-se, deleite-se com minha sombra.
_Eu, humano, os desafio a me derrotarem. Eu, humano, domino minhas vontades.
Corria, morria de cansaço. Agora que as drogas não fazem mais efeito em mim, agora que não tenho mais nada pela chuva ou pela noite, que não me sinto mais tão forte, agora tenho vontade de ficar aqui em minha cela. Sentei-me em minha cela. Uma cela de pedra, com sombra por metade do dia. Mais um dia de desespero. Mais um sono congelante, uma noite perturbada.
Acordo na floresta, molhado, manchado, com um machado ao lado, nu e machucado. Vejo duas silhuetas contra a luz de uma fogueira. Um moreno, magro, esguio e nu. Um branco, magro, esgui e nu. O moreno diz algumas palavras, toca no sexo do outro e foge.
Estou sendo tratado por um animal. Ela me injeta venenos, ela os testa em mim, mas por algum motivo sobrevivo. Eu, agora desumano, sobrevivo.
_Gosto de como você se contorce todos os dias, com os efeitos passados de dias anteriores.
_Gosto de como vocês se amam, de como vocês se tocam e como vocês precisam um do outro.
_Gosto de como você nos observa. É estranho, e divertido te torturar.
_Gosto de como vocês me tratam, sem saber quem sou.
Eu, objeto, era imóvel. Satisfazia minhas vontades ali, em mim mesmo. O moreno vinha e me tocava, recitava poesias, me rasgava com suas grotescas unhas azuis e desenhava em mim com sangue. Eu era como um vegetal, mal falava, mal pensava. O dia inteiro, todos os dias, vivo sob efeito das drogas. Não sei se estava mais vivo ou mais morto, talvez fosse apenas os efeitos tardios das drogas que me mantivessem vivo, àquela altura.
Um dia eles não voltaram mais. Pude acordar então de meu sono. Pude então ver o mundo com outros olhos. Pude então ver que eu era de fato resistente, insistente, caucitrante, latente. Me debrucei sobre os restos da fogueira. Havia uma pequena cabana com coisas pessoas. E havia gritos o tempo todo. Levei dois dias até que consguisse ficar de pé novamente. Havia gritos e êxtase e devassidão, misturados com gritos de dor e lamento.
Caminhei, vi que me encontrava num oásis. Cada inseto ali eu já conhecia, cada ramo de planta eu já tinha provado. Cada grito, eu já ouvira antes. Era sexo. E traição. E fogo. E paixão. Uma antiga tradição, um ritual de sangue.
El Aoqn - Pai da religião pagã, amante da matadora Kriedz. Um amor belo como o fogo numa cidade em ruínas. Eu me senti perdido e cego. Caí de joelhos e os gritos pararam.

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